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MILAGRE, DESESPERO OU
SANTA IMAGINAÇÃO
Já faz alguns anos um
conhecido meu contou um episódio que aconteceu num bairro próximo
onde ele morava. Uma árvore, numa determinada hora do dia, jorrava
um veio d'água. As pessoas moravam naquela localidade começaram a
propagar que era um milagre. Logo uma romaria se dirigia para a "árvore
que chorava". Diziam ser um sinal do céu. Pessoas se aglomeravam para
rezar diante da "árvore milagrosa". A romaria teria aumentado se não
fosse descoberta a origem de tal "milagre". Qual não foi a surpresa
de todos ao tomarem conhecimento de que a água que jorrava através
do tronco era proveniente de um vazamento do cano que abastecia o
bairro e que passava por baixo daquela árvore. Então, quando a certa
hora do dia se ligava a chave geral que fornecia a água, uma parte
desta sob pressão saía pelo vazamento entrando pela primeira brecha
que encontrou. A ilusão dos fiéis durou pouco. Muitas destas histórias
têm por aí. A imagem da santa que chorava e as pessoas acreditavam
que era um milagre até que se descobriu que a umidade do local onde
ficava a imagem, ocasionada por uma infiltração de água, era causa
do "milagre". E o que dizer da imagem da santa que chorava sangue.
Um dia descobriram que a zeladora da igreja colocava sangue nos olhos
da imagem. Agora, estamos vendo através dos noticiários, uma romaria
se concentrando na frente de uma casa para rezar, fazer promessas
diante de uma mancha que apareceu na vidraça de uma janela. Aquelas
pessoas acreditam ser a imagem de uma santa. Assisti algumas reportagens
na TV e fiquei espantado com a crendice popular. Parece que estamos
retornando a Idade Média quando o povo era explorado e enganado pelas
aparições de falsos milagres e vendas de relíquias supostamente sagradas.
Dizem até que se juntassem os pedacinhos de madeira que foram vendidos
como se fossem da cruz de Cristo, teríamos uma imensa floresta. Recentemente,
cerca de quarenta mil pessoas se aglomeravam na frente de uma janela
fazendo preces e promessas (alguns até dizendo receber uma mensagem)
a uma mancha. E o pior é que muitas dessas manchas têm se espalhado
pelo país. Basta laguem olhar para uma mancha numa vidraça e já começa
a ver uma imagem do sobrenatural. A crendice é tão forte que não adianta
se dizer o contrário. Mesmo que cientistas, teólogos, especialistas
em vidros e outros digam que não tem nada haver com sinal do céu,
as pessoas continuam crendo. Como diz o reverendo Cânon William V.
Rauscher "a necessidade de acreditar em falsos milagres às vezes ultrapassa
não só a lógica mas, aparentemente, até a sanidade mental." Poderíamos
ponderar sobre várias razões que podem levar as pessoas a uma credulidade
sem fundamento. Mas, porque nosso objetivo aqui não é fazer um tratado
sobre o assunto, citaremos apenas duas possíveis razões. A primeira
é a necessidade do povo de se agarrar a algo que possa dar esperança
diante de uma situação de desespero, insegurança e fragilidade. E
não é de admirar que o povo brasileiro está enfrentando uma situação
assim. Risco Brasil, alta do dólar, violência, aumento do desemprego
só para citar algumas. Ora, todas estas coisas apontam para um futuro
sombrio, gerando incertezas e desesperança. Isto leva as pessoas a
se agarrarem a um falso milagre como se fosse verdadeiramente um sinal
do céu. A segunda razão é o que se chama de "síndrome do crente",
uma expressão cunhada por M. Lamar Keene "para descrever o comportamento
de pessoas que continuam a acreditar numa farsa mesmo após esta ter
sido claramente desmascarada. O termo vem da comparação da crença
em coisas improváveis, para as quais faltam provas, ou mesmo abundam
provas em contrário, mas em que a pessoa quer ou precisa acreditar,
a uma fé quase religiosa." Keene fala de experiência própria, pois
ele foi um falso paranormal que se regenerou, e expôs as suas falcatruas.
Este "distúrbio cognitivo" pode estar levando milhares de pessoas
a acreditarem que manchas em vidraça é um sinal de Deus, mesmo sendo
provado o contrário. Vejamos só um exemplo. Num hospital em Recife
apareceu uma mancha dessas na vidraça de uma enfermaria. Logo se espalhou
a notícia de que a imagem de uma santa havia aparecido. Então, uma
funcionária daquele hospital explicou que aquela imagem fora causada
por umas figuras colocadas ali para alegrar o ambiente na época de
Natal. Devido ao tempo em que estiveram expostas ao calor do sol,
as formas de algumas figuras ficaram como uma impressão. Mesmo depois
desta explicação vir a público, muita gente continuou crendo que era
um milagre. Aqui fica evidenciado a "síndrome do crente". Muitos estudiosos
podem dar melhores explicações do que eu. Sou apenas pastor evangélico
e como tal creio em milagres operados por Deus. Porém, as palavras
que ora escrevo são apenas de alerta para julgarmos bem todas as coisas,
a luz de provas incontestáveis, para não sermos levados por qualquer
"sinal" que apareça no mundo acreditando ser de origem divina. Tão
pouco estou criticando as pessoas que assim procedem, pois há fortes
razões por trás deste comportamento.
Pr. Belarmino
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