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NOVO CORAÇÃO
O “coração” tem dois sentidos na Bíblia: um literal, ou seja, órgão do corpo que é a sede da força e da vida física. É neste sentido que o salmista Davi diz: “o meu coração está agitado; a minha força me falta...”(Sl 38.10). O outro sentido é o metafórico, isto é, o coração(Léb, Heb.) é a sede da vida espiritual e intelectual do homem, a sua natureza mais íntima. No sentido mais amplo, o coração é a sede do sentir, pensar e desejar do homem. De forma mais específica vejamos: 1) O coração como sede das emoções sente alegria, “por não haveres servido ao senhor teu Deus com gosto e alegria de coração”(Dt 28.47); dor, “Ah, entranhas minhas, entranhas minhas! Eu me torço em dores! Paredes do meu coração! O meu coração se aflige em mim...”(Jr 4.19); tranqüilidade, “ o coração tranqüilo é a vida da carne...”(Pv 14.30); e excitação, “para que o vingador do sangue não persiga o homicida, enquanto estiver abrasado o seu coração.”(Dt 19.6). 2) O coração como a sede do entendimento e do conhecimento, “...eis que te dou um coração tão sábio e entendido...”(!Rs 3.12), bem como de fantasias e visões “...os profetas profetizam mentiras... visão falsa, adivinhação, vaidade e o engano do seu coração é o que eles vos profetizam”(Jr 14.14). Por outro lado, a estultícia e os maus pensamentos também operam no coração, “o coração dos ímpios é de pouco valor”(Pv 10.20) e ainda, “o que sai da boca procede do coração; e é isso o que contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos...(Mt 15.18-19). 3) O coração como sede da vontade e da intenção ponderada, “ora, Davi, meu pai, propusera em seu coração edificar uma casa ao nome do Senhor, Deus de Israel”(1Rs 8.17), também da decisão que está pronta a ser colocada em prática “...e a todo homem hábil, em cujo coração Deus tinha posto sabedoria, isto é, a todo aquele cujo coração o moveu a se chegar à obra para fazê-la”(Ex 36.2).
Ainda no Antigo Testamento o coração é apresentado como a sede da reverência e adoração a Deus, “tão-somente temei ao Senhor, e servi-o fielmente de todo vosso coração; pois vede quão grandiosas coisas vos fez”(1Sm 12.24). O profeta Jeremias acrescenta: “...e farei com eles um pacto eterno de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim”(Jr 32.40). Quando somos fiéis ao Senhor o nosso coração se inclina à Sua lei, “Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, vós, povo, em cujo coração está a minha lei...”(Is 51.7). Porém, o coração dos ímpios é endurecido e se afasta de Deus, “ ... pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração...”(Is 29.13). Conforme a teologia do AT, a conversão a Deus acontece no coração. O salmista escreve: “cria em mim, ò Deus, um coração puro...ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ò Deus”(Sl 5l.10,17). Em Joel 2.12, o Senhor exorta: “convertei-vos a mim de todo o vosso coração...”O profeta Jeremias afirma que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?”(17.9). Ou seja, ninguém pode entender seu próprio coração. Mas, o verso seguinte diz que o Senhor o conhece muito bem: “Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração...”(17.10). Quando partimos para o Novo Testamento, a palavra “coração”(kardía ) denota, mais freqüentemente, a sede da vida intelectual e espiritual, a vida interior, em contraste com as aparências externas. “Não nos recomendamos outra vez a vós, mas damo-vos ocasião de vos gloriardes por nossa causa, a fim de que tenhais resposta para os que se gloriam na aparência, e não no coração.” Frisamos que coração como órgão físico ocorre com raridade(Lc 21.34;At 14.17). O coração é apresentado como centro dos poderes do espírito, da razão e da vontade, bem como, das emoções da alma, dos sentimentos, das paixões e dos instintos. O coração representa o próprio “eu” do homem. “Mas seja do íntimo do coração, no incorruptível traja de um espírito manso e tranqüilo, que é precioso diante de Deus.”(1Pd 3.4). O valor que a Bíblia dá a operação do Espírito Santo no coração do homem é grande, porque quando o coração está escravizado pelo pecado, a totalidade do homem está em escravidão. Pois, é do coração que surgem os maus pensamentos(Mc 7.21); os desejos concupiscenciosos têm o seu lugar no coração, “ por isso Deus os entregou nas concupiscência de seu corações...”(Rm 1.24); a desobediência e impenitência começam no coração, “mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti...”(Rm2.5); dureza e incredulidade também têm sua origem no coração. Quando Jesus apareceu aos discípulos, após a ressurreição “censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado”(Mc 16.14). Ainda Hebreus há uma exortação a que não haja em nós um “perverso coração de incredulidade que” nos “afaste do Deus vivo”(3.12). O Coração pode tornar-se embotado e obscurecido, “porquanto”, diz Paulo, “tendo o conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato”(Rm 1.2l). A “dureza de coração” é a condição do homem egocêntrico que se fecha e se afasta de Deus, que não atende às Suas exigências, provocando assim o Senhor. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na provocação”(Hb 3.15). O homem que endurece seu coração se precipita no mal, “...mas o que endurece seu coração virá a cair no mal”(Pv 28.14). O homem sem Deus vive sob o poder do pecado, que fez morada no seu coração, e daí escraviza o homem inteiro. O homem natural tem um coração endurecido e rebelde contra Deus. Pelo que temos visto até aqui, a corrupção nasce no coração do homem contaminado todo o seu ser. É, justamente por isso, que Deus começa Sua obra de renovação no coração do homem. Este é o lugar onde a questão pró ou contra Deus se decide. Quando o coração se converte o homem inteiro é atingido. A palavra de Deus tem poder para penetrar o coração mais endurecido. Quando a apóstolo Pedro terminou seu sermão de Pentecostes, em Atos 2.14-36, os ouvintes “compugiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?”(2.37). A conversão do coração a Cristo é levada a efeito porque Deus abre o coração do indivíduo. “E certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura...nos escutava e o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia”(At 16.14). Ao abrir o coração do homem Deus faz Sua luz entrar e penetrar nas profundezas do ser. “Porque Deus que disse: Das trevas brilhará a luz, é quem brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo”(2Co 4.6). Quando o homem se converte, Deus envia o Seu Espírito como selo e penhor ao seu coração. “O qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações”(2Co 1.22). Além disso, o amor de Deus é derramado no coração do homem convertido(Rm 5.5). O crente tem, pela fé, Cristo habitando em seu coração, “que Cristo habite pela fé nos vossos corações...”(Ef 3.17), e a Sua paz passa a dominar, “ e a paz de Cristo...domine em vossos corações...”(Cl 3.15). O coração crente é fortalecido pela graça de Deus “...porque bom é que o coração se fortifique com a graça...”(Hb 13.9). Jesus afirmou que um coração puro é condição essencial para vermos a Deus. “Bem-aventurado os limpos de coração, porque eles verão a Deus”(Mt 5.8). Tudo que vimos até aqui nos dá a certeza de que a Bíblia coloca o coração como centro da vida. Deus começa Sua obra no homem renovando o coração. “E dar-lhes-ei coração para que me conheçam, que eu sou o Senhor; e eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus; pois se voltarão para mim de todo o seu coração”(Jr 24.7). O coração do homem só pede verdadeiramente conhecer o Senhor se renovado por Ele. Para que o homem ande nos mandamentos de Deus, obedeça as Suas ordenanças, é preciso que Senhor tire “o coração de pedra” e coloque “um coração de carne”, ou seja, sensível a Sua voz(Ez 11.19-20). A Bíblia traz diversas exortações para tomarmos cuidado com o nosso coração. Devemos guardar o coração porque dele “procedem as fontes da vida”(Pv 4.23); é no “coração que se crê para a justiça”(Rm 10.10); um coração que crê no Senhor é justificado dos seus pecados: teimosia(Ec 8.11), desvarios(Ec 9.3), depravação(Jr 17.9), toda sorte de mal(Mc 7.21-23), incredulidade(Hb 3.12). Um coração novo se entrega totalmente a Deus em amor(Dt 6.5), em obediência(Sl ll9.2), em confiança(Pv 3.5), em oração(Jr 29.l3) e em arrependimento(Joel 2.12).
Pastor José Belarmino da Silva Filho |
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